Começo do começo

Com cinco ou sete anos, não sei direito (você vai perceber que não sei direito muitas coisas dessa história toda – é a continuação de toda a sorte que a vida me deu), havia um homem, um cuidador, enfermeiro do meu avô. Mas é claro que ele não é o personagem principal desta história – a história é minha, a personagem principal sou eu.

Bem, num resumo e apresentação bem rápida dos fatos, este homem vivia no apartamento dos meus avós. Isso, aquele lugar confortável e recheado de boas lembranças: o almoço familiar, a reunião dos primos e primas, as músicas, os doces proibidos pelos pais. Eu também vivia no apartamento dos meus avós.

Em algum momento, meus avós dormiam – ou é assim que me lembro, pois não sei direito. E este homem, com suas mãos muito maiores do que as minhas, olhos maiores do que qualquer um que já vi no mundo, este homem de alguma maneira que não me lembro, me colocava em seu colo e me mexia. Mexia contra seu colo. E, não sei direito como, a vida se apagava daquele momento em diante.

Também não sei ao certo como era a cronologia destes fatos, não tenho memórias de sentir qualquer coisa, de fazer escândalos ou impedir que meus pais me deixassem por mais uma tarde na casa de meus avós – porque o tamanho do que este homem apagou da minha vida não é mensurável, ainda não é – mas não vai, ah, não vai mesmo, ser maior do que a minha história, do que eu sinto e vivo. E não vai ser maior do que meus sonhos, do que minha missão.

Sei que é um buraco. Um buraco vazio, que durante algum ou muito tempo foi preenchido com suposições acerca do “porquê eu sou assim”. Com muita terapia e alguns sonhos, puxei o fio da meada: olhando para os vidros desenhados da cristaleira símbolo da minha infância, fui abusada.

Acontece que, abusada que sou, decidi: esta vida, esta história, esta experiência – ela é minha. E a personagem principal sou eu. E eu, ah… eu ouso. Ouso buscar, ouso viver, ouso não permitir que um abuso me defina. Ouso escrever sobre isso e, assim, preencher este buraco com o há de mais valioso pra mim, nesta vida: tudo é estrada pro crescimento, depende de cada um como vai caminhar.

E eu, como a esta altura do campeonato você já sabe – eu ouso.

Voltando do fundo do poço

Não é um lugar bonito, não mesmo. Mas tem sido importante dar esse passeio pelas minhas trevas e me encontrar com tanta gente-sensação que se manifestava em mim e eu sequer sabia porquê.

Não, eu honestamente não acho que tudo na minha vida tem a ver com o abuso, apesar de sim, ser mais do que comprovado que a psiquê de quem passa por este tipo de trauma tem um quê de não-estima no lugar do auto-amor e, então, dá pra imaginar que a vida seja mesmo construída num terreno pantanoso muito mais do que em solo fértil. Acho que já falei sobre isso aqui.

Foi feio e, viu?, tão cansativo que dá pra entender que tenha gente que escolha sobreviver do que retomar toda aquela vontade e VIVER, assim mesmo, com letra maiúscula. Mas essa coisa de sobrevivência não é pra mim, eu fico muito mal humorada respirando por aparelhos. Isso foi uma coisa importante neste período: e tenho aprendido a me conhecer e, só assim, entendo que seja possível me respeitar de verdade. Um dos maiores presentes que alguém sem a capinha da auto-proteção pode receber é o olhar carinhoso, cuidadoso e amoroso de si mesmo. E é praí que estou andando, mesmo com um tropeço ou outro no caminho.

Descobri que não preciso me agarrar em qualquer pessoa que aparece do meu lado e sequer me submeter a toda e qualquer vontade desta pessoa só pra que não me deixe sozinha. Acredite, este achismo rendeu tantos ex(aindabem)-namorados tranqueiras que é quase um milagre que eu não tenha apanhado. Ah, é!, eu realmente cheguei a apanhar de um deles, ops!

Descobri que não só posso como devo contar comigo mesma pro que der e vier e que, puta-que-pariu como é difícil sair deste lugar “à espera da salvação” e me movimentar pra onde quero estar – mas olha só: onde EU QUERO estar é tão maravilhoso de sentir porque, acompanha comigo, eu estou querendo algo pra mim, individual, cheia de vontade própria, querendo sozinha sem ninguém querer também (mesmo que eu saiba que tem um tanto de gente torcendo bastante pra que eu consiga!) e, uau, ter vontades já é uma mudança em termos de volta do fundo do poço.

Tenho me organizado e realizado tarefas rotineiras neste sentido, no meu sentido. Cansa sim, é muito diferente conversar comigo mesma sobre o que eu quero e confesso, existe um esforço enorme em observar se estou me comportando como alguém que deseja ser salva ou se aquela atitude é em benefício próprio.

É isso… um caminho longo mas bem gostoso esse de sair do fundo do poço e, com muita terapia, respirações profundas e um tantinho de vontade todo dia, além de sorrisos pra vida, reaprender a me auto-amar.

Um dia cinza também pode ser do bem

Hoje o dia está literalmente cinza e fui invadida por um choro profundo, daqueles que pedem que os céus, todos eles, protejam e acarinhem estas crianças que foram salvas deste contexto monstruoso.É sim muito bonito e extremamente importante que existam polícias estruturadas afim de procurar na mais profunda web – ferramenta que certamente viabiliza com maior facilidade as atrocidades sexuais contra crianças e adolescentes, mas que, lembremos, não é a culpada: na minha época não havia nem SMS, veja bem. Mas é tão, tão, tão dolorido saber que além dos pequenos corpos abusados, há o mental abalado a ponto de desestruturar tanto do que poderia ser uma existência simples e feliz (por mais que cada vez eu esteja mais inclinada a aceitar que este mundo, este plano, é apenas mais um e que seu tipo realmente beira uma evolução permissiva tanto em termos de amor quanto de dor, guiado por escolhas que, por sua vez, são guiadas pelo mental: entende a preocupação com a continuidade dos danos ao mental alheio, num plano global? É, eu viajo, mas reflita…)

Também há um desejo forte de que todas as próximas pessoas que estas crianças encontrem sejam pessoas de bem, pessoas com muito, mas muito amor para possibilitar o desenvolvimento e crescimento destes pequenos corpos aprisionados numa história triste, afim de ajudá-los em sua caminhada para a liberdade – é possível, eu sei, mas é tão duro que parece restrito àqueles que contam com os semi-insanos poderes de uma alma inquieta somado aos supra-reais poderes daqueles que acarinham como forma de cura.

Conheço pessoas nas duas situações: quem calou e seguiu em frente e quem às vezes não consegue dormir de tanto barulho que um machucado deste faz.

Atesto, por A+B, que quem tem insônia hoje, mas persiste na libertação – e não na vitimização, apesar de sim, ser vítima num entendimento realmente superficial, porém de enorme valia para quem não crê em outras vidas (e o que seria desta se não houvesse tantas outras, como disse um amado amigo estes dias?) – segue com maior firmeza movimentando pro lado positivo. Aquele que cala, segue matando algo de tão relevante que pode ser comparado à vida, num suicídio que pode parecer calmaria e tranquilidade pra quem vê de fora.

O abuso sexual, sabe, ele não é algo que simplesmente passa.

Celebremos, hoje, estas prisões, estas investigações que movimentam não só o mundo de quem é aprisionado pelo abuso mas também libertam, de um jeito ou de outro, o meu mundo e também o seu.

Aqui, o link para uma das coberturas na pauta do dia.

A vida em movimento

De tempos em tempos fica mais difícil. Seja porque o tempo mudou e cicatrizes doem durante esta transição ou porque me sinto descuidada, a dor aumenta e volta a tentar dominar o corpo, a mente, as sensações e o futuro. 

Dói mesmo, parece drama, já achei que fosse (sou dramática e o seria mesmo sem o abuso, é coisa de personalidade cênica, essa minha) – mas não é. É coisa de cicatriz mesmo. Sabe quando você está no trânsito, no ônibus ou no carro, ou andando de bicicleta e de repente se pega pensando naquele namorado do primário e dá aquele sorrisinho gostoso mas sem nenhuma pretensão nenhuma de ligar, procurar o perfil dele no facebook ou questionar o que foi que você fez pra não estarem juntos até hoje? Então, é a mesma coisa só que com uma dor chata.

A diferença é que, agora, eu olho pra essa dor quando ela chega, dou uma choradinha proporcional e deixo passar. Estou tentando ficar focada em não alimentar os pensamentos paralelos – seja analisando o que me levou àquela situação, seja pedindo ajuda projetada pras pessoas, especialmente pra minha família.

É complicado quando você expõe uma situação maluca do tipo “olha, eu fico assim um tanto desesperada quando estou pedindo ajuda de amor pra tentar curar aquele momento assustador, e é sério que de vez em quando acontece de eu nem perceber que estou vivendo um mini-surto de pedido de ajuda, mas entendi que é isso, então se você pudesse me dar um abraço e um beijo e, se não for pedir demais, dizer que está tudo bem ou que vai ficar tudo bem, nossa, seria o máximo e desconfio que pararia a crise” – não dá, né, porque as pessoas têm sua própria caminhada e não têm a obrigação de cuidar de uma mulher crescida que se diz ousada e abusada. E, especialmente, porque a parte que me levou a escrever um este blog de compartilhamento de uma experiência escrota e do mal é a parte de acreditar na cura, mesmo que seja uma ousadia. Sou expert nisso, não posso esquecer 🙂 

Daí que estou nesse treino de sentir a sensação e deixar passar, mesmo que com choro, mesmo que com aquele movimento de encolher o corpo e dar um mini enjôo. Eu me permito sentir, sinto e deixo passar. E, enquanto sinto, fico esperta nível chefão pra não deixar estes paralelos, tão comuns à quem tem a cabeça criativa, tomarem conta do meu exercício de sentir. 

Tem funcionado, tem me mantido segura. E, torço, de coração, pra melhorar e continuar funcionando para, além de me manter salva, me manter sã. 

Sobre expectativas e oportunidades

Certa vez, um amigo me falou: esta sua expectativa de que tudo esteja bem pra estar tudo certo acaba com você. Hoje, por diversas razões, entendi e senti na pele sobre o que ele estava falando.

Você deve saber que quando a gente se machuca andando de bicicleta e arrebenta o joelho e quebra o dente e toma uma bronca enorme dos pais é ruim, bastante ruim, mas que naquele momento estava tudo tão divertido que tudo bem, o preço do machucado e da bronca tem esse desconto maravilhoso que é a sensação de “tá legal, eu aproveitei”.

Esta é a grande sacanagem dos machucados da alma: eles não têm um proveito tão objetivo e rápido. Pelo menos nesta vida assim como a gente vive, encarnadinhos, vamos colocar desta forma, são muitos e longos anos até entender que o maior proveito desta vivência de ter sido abusada é a de constatar em diversos momentos do dia que, de um jeito ou de outro, eu sobrevivi e, poxa vida, sou forte.

O de um jeito ou de outro sobre o que escrevo tem relação com a forma de condução da caminhada: hora tropeçando em lágrimas de medo, hora correndo sem muita direção, mas correndo com força daquilo que já não me cabia mais. E, assim e por isso, de um jeito ou de outro, cheguei onde importa: no ponto que toda esta história traz mais orgulho de mim do que dor e mágoa.

Por menor que seja esta diferença, já é uma diferença linda.

Hoje, no carro, dei um sorriso quando pensei na possibilidade de reformulação de sensações extremamente ruins –  se eu enfrentei a memória de um homem grande fazendo crueldades com uma menina, eu posso enfrentar muita coisa que me amedronta, porque por mais bagunçado que isso venha sendo, a matemática está com saldo positivo e me sinto viva. Me sinto viva e me sinto bem e, ah, se eu pudesse te contar, tenho colhido frutos deliciosos por estar assim.

Com dias de alegrias e respiração fluída e dias de pavor de sair do quarto, porque me sinto absolutamente desprotegida quando a vida começa a ir bem e as lembranças de que quando está tudo bem algo muito ruim acontece ainda querem voltar e que com certeza vai faltar ar porque, olha… Mas saio. Tenho orgulho de mim, lembra? Força, fé e um pouquinho de foco, que a personalidade estabanada me deu este gostinho de circular por aí.

E, voltando ao que meu amigo falou de que não precisa estar tudo bem pra estar tudo certo, acho que é simplesmente porque não existe tudo bem. Sem pessimismo, mas é absolutamente normal que o dia não esteja tão ensolarado como eu gostaria ou que meu saldo bancário não permita que eu faça tudo o quero, e a vida não precisa ser uma enorme corrida até que isto “tudo” esteja acertado. Mas é importante que esteja positivo. E está. Positivo e operante 🙂

Aproveito pra sugerir as Constelações Familiares da Elaine pra quem quer enfrentar traumas e dissolver conflitos amorosamente. Aproveito pra sugerir música boa como trilha sonora pra quando o medo vier – o corpo envia mensagens de calmaria via acordes, é bastante gostoso. E aproveito pra sugerir que você não desista de você e ouse ser feliz, mesmo que esteja tudo bagunçado e um sorriso no carro no meio do dia seja maravilhosamente suficiente pra lembrar o quanto a vida é uma excelente oportunidade.

 

18 de Maio

Hoje é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. 

Além de ser uma data de extrema importância por pontuar o diálogo sobre temática tão obscura, é relevante porque expõe pra quem sofre calado alguns canais de comunicação. Experimentei, por teste, o Disque 100.

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O Dique 100 é um serviço de amparo e orientação do Conselho Tutelar, atende todo o Brasil e atua de maneira a orientar crianças e adolescentes em situação de abuso. É eficiente porque, além de ser gratuito – aceita ligações de orelhão, inclusive, mantém sigilo mesmo quando quem chama é menor de idade, até que alguma decisão legal seja tomada. Ou seja, só quando a vítima está em segurança é que as providências são tomadas. 

Mas quais são as providências? 

Depende. Acolhimento é a principal, o que já é de fato relevante. Como já sou adulta, a conselheira falou bastante em terapia, para reconstruir o cenário emocional, base de sustentação da vida. Caso fosse criança, explicou ela brevemente, poderiam entrar inclusive com trâmites de encaminhamento para adoção. 

Parece triste quando uma criança tem que ser retirada de sua família para deixar de ser abusada, mas a impressão sentimental que tenho é de que todos merecemos uma, duas, três, mil chances para sermos felizes. O extremo, para quem foi abusado, já foi experimentado antes e, diante da possibilidade real de parar de doer, perspectivas de recomeço em segurança podem – e devem – ser levadas em consideração. 

Por sorte, meu agressor não é parte da família. Mas sei que o cenário real não é este – grande maioria dos casos acontece dentro de casa, por parentes. E isso deve ser deveras mais complexo de restruturar. Mas não impossível. Acredito com força que a meta de cada um de nós é nunca desistir, seguir aos trancos e barrancos até que encontremos uma linha de conduta que traga a paz de espírito, de corpo e da mente para tocar a vida – com os altos e baixos que são naturais e normais, acalmando os medos e machucados que um abuso deixa, com amor.

O Disque 100, certamente, pode ser o início deste árduo, longo e dolorido processo de retomada de condução de vida. Vale o chamado. 

Agradecer também é muito bom <3

Hoje recebi a segunda mensagem de alguém que leu este blog e disse se sentir mais forte, mais firme e melhor para continuar. Descrevo a sensação para que não se perca: dá um quentinho no coração, brota uma lágrima no olho direito, abre um sorriso na boca e aparece um “yes!” interno, naquele lugar da alma que diz que sim, está tudo dando certo.

Quando comecei este blog, estava num processo de externar o que aconteceu comigo e, sei, acontece com muitas meninas e meninos numa idade na qual sonhos e futuro deveriam estar absolutamente desvinculados de violência. Sei também que a violência sexual não é o único tópico doente que pode passar pela infância de um número enorme de crianças, mas, de perto, só conheço o abuso sexual mesmo. E não sou jornalista – sou apenas uma pessoa que considera a escrita um dom e tento transferir mensagens por meio dos textos. Mensagens que eu acredito, mensagens que eu mesma li (em mim mesma ou nos meus encontros com a sorte da vida) não são mensagens pontuais de dados e fatos, como devem produzir os jornalistas: são mensagens de sensações. e de sensações entendo – e escrevo – sobre as minhas.

E minha sensação hoje ao começar a escrever este texto é a de profunda gratidão a estas pessoas que saíram de sua escuridão e se iluminaram ao falar comigo, uma ilustre desconhecida, sobre uma questão tão íntima e profunda. Obrigada por sentir vontade de falar, obrigada por não parar de procurar solução pros seus pontos e obrigada, de coração, por compartilhar tudo isso.

No mais, seguimos ousadas – muito mais do que abusadas, lembrando que além de não ser jornalista, eu também não sou terapeuta nem tenho receitas mágicas pra curar este ou outro tipo de machucado. Tenho uma vontade enorme de brilhar o que sou e, nesta caminhada, encontrar a possibilidade de melhorar a vida de algumas pessoas. Vale, então, tomar fôlego e contar pro psicólogo, pro melhor amigo, pro assistente social e movimentar a cura, num processo lindo de troca de amor.

Hoje, de verdade, sinto meu caminhar com muito mais certeza.

Obrigada!

Eu, toda eu.

Hoje tá doendo de um jeito diferente.

Há quase um ano venho aqui, quietinha, escrevo e passa. Passa um pouco, porque dali a pouco – ou um tanto – volta a doer de novo. E volto pra cá escrever, num ciclo que, bastante e de verdade, eu acreditava que acabaria quando conseguisse curar.

Daí eu vi um vídeo.

No descritivo do texto da matéria onde o encontrei exposto, falava assim: o vídeo é “uma forma de expressar a frustração de Jessie em não conseguir superar o que lhe aconteceu mesmo após anos de terapia”.

Fiquei triste, confesso, um tanto quanto apreensiva porque, poxa, se eu estou aqui me dizendo ousada e falando sobre um caminho feliz, achando que movimento minha melhora no meu mini-mundo-contado-num-bloguinho, esta menina fez anos de terapia e não conseguiu superar, ai… será que não estou me enganando sobre uma possível solução pro meu problema do abuso?

Daí que, sabe, a melhor parte de crescer deve mesmo ser este tal de ressignificar.

Depois do play, assim que o vídeo acaba, chorei tanto, mas tanto, e é tanto, mas tanto de “ufa, ainda bem que sinto que não existe a possibilidade desta ficha ter caído antes porque, vai saber, eu estava trabalhando duro pra estar pronta pra segurar a ficha quando ela caísse…” …porque é incrível. É incrível mesmo este momento de compreender que não importa quantas cartas eu escreva, não importa quantas sessões de terapia eu faça, quantos moços eu ame e que me amem também, não importa o tempo passando ou coisas maravilhosas acontecendo, eu sou – e sempre vou ser – uma pessoa que foi atacada por um monstro quando era uma criança feliz sendo o que melhor sabia ser: uma criança e só.

O que é muito, mas muito foda e dá vontade de me abraçar bem forte e falar “parabéns, mocinha, nunca duvidei do tamanho do seu coração e do tanto de significado bom que ele encontra pras coisas, é claro que este momento ia chegar, mais cedo ou mais tarde, estou orgulhosa de você” é que fez click que não, não vai passar. E não tem que passar. É parte da minha história, que tem muitas outras histórias – e, especialmente, que desejo de alma e coração enorme que tenha muitas, muitas mais.

Pode ser que mude, que doa em alguns dias menos, alguns dias mais, a TPM vai influenciar nisso, pode ser, vou acordar com susto no meio da noite, vou ter noites maravilhosamente dormidas e um tanto de tudo vai acontecer – mas nadica de nada que eu faça, vai apagar este ponto da minha história.

E, ué, por que é que estou falando que este momento é tão foda assim, se parece tão óbvio que isso não vai deixar de fazer parte da minha vida?

Há anos, anos mesmo, invisto dinheiro, tempo, lágrimas e algumas relações querendo resolver esta questão do abuso. Porque acho absurdo um monstro pegar uma criança e, porra, sabe? Absurdo é uma palavra que cabe. Mas, vê só… investi, batalhei, entendi e o tal do assunto continua sempre ali, assombrado minha existência. Hoje, após uma conversa com um amigão que fala as coisas assim, na lata, que é pra não ter interpretação lenta ou mimimi e ao chegar em casa  ver este vídeo, foi como se “a vida” estivesse me cercando com o mesmo recado: está tudo bem, já está tudo bem.

Me sinto feliz de verdade, feliz num lugar que eu não sentia faz um tempão, com uma dor física, uma dor de espreguiçar depois de anos e anos encolhida: percebo que eu não preciso resolver mais nada sobre este assunto, percebo que sim, é mesmo, já está tudo bem. Porque faz parte, sempre vai fazer, e eu não preciso mais me relacionar com isso como prisioneira.

E hoje, dia 29 de Abril de 2014, eu me amo inteira.

Ousada, abusada e com data de segundo aniversário marcada com um coração enorme na agenda.

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(tá aqui o vídeo, é óbvio. E se caso você estiver lendo isso aqui e sua sensação não é a mesma que a minha, não se desespere: cada um tem seu tempo, seus processos e aprendizados. Se esta ficha tivesse caído em algum outro momento da vida que não agora, que é o momento certo pra mim, pode ser que eu nem tivesse braço pra segurar – acredite, logo te conto umas poucas e boas das quais me livrei.)

 

Em segurança

Quando você é uma criancinha feliz e brincalhona e um adulto qualquer chega e abusa de você (insira aqui cenas de nojo, isso, um tipo de nojo bem forte – é o que senti quando tentei escrever a cena, é o que eu achei que gostaria que sentissem quando lessem este texto… mas não, não é nojo o que quero causar: quero causar uma transformação de fortalecimento em quem sofreu abuso, então ok, somente imaginem algo bem nojento e tá de bom tamanho) – ufa! – bem, quando um adulto chega e abusa de você acontece um enorme fenômeno de insegurança, que pode parecer com um diálogo interno de “ué, eu estava aqui sendo eu e, do nada, vem um monstro e faz essa nojeira comigo?”.

Simplificando muito, depois de muito silêncio, análise e auto-observação, achei coerente que deve ser este mesmo o diálogo interno que acontece em algum momento próximo ao do abuso. Fora o apagão estratégico da mente, as sensações de medo absurdas e sem causas definidas ao longo da vida e outros poréns, a insegurança está no topo da lista de machucados que o abuso deixa quando chega a idade adulta. Porque um adulto inseguro fica insuportável pra si mesmo e, salvo um ou outro que eu sequer conheço (mas não tenho a pretensão de taxar regras aqui, só de compartilhar a minha experiência e vivência na jornada ousada de me curar deste mal, amém), poucas pessoas adultas conseguem construir coisa que seja sendo inseguras. Porque “ué, eu estava aqui sendo eu e, do nada, vem um monstro e faz essa nojeira comigo?” é algo muito, muito incômodo pra um cérebro repetir – afinal, uma das regras da vida é ser a gente mesmo, né não?

Daí que a mente, aquela coisa brilhantemente incrível que funciona sob o comando de algumas sensações, emoções e ordens, pode ficar acostumada a sentir uma insegurança daquele tamanho nojento a qualquer hora do dia e da noite. É, veja bem, não quero dizer que isto só acontece com quem foi abusado ou que todo abusado passa por isso, mas tem acontecido comigo neste momento e achei que valeria compartilhar, porque a experiência vem sendo extremamente válida. Mais ou menos assim: a vida tem um tanto de situações inseguras, muitas delas, inclusive, só são deliciosas por conta da insegurança que envolve o cenário – quem nunca sentiu as borboletas no estômago quando rolou aquele beijo que atire a primeira pedra (aí tem insegurança boa, percebe?). E têm as situações de insegurança mais chatas, como o emprego instável e outras tantas, de diversos outros tipos.

E, ah, que além de eu ser ousada, aliás, creio que justamente por eu ser ousada, a vida tem me presenteado com alguns conhecimentos interessantes (via livros e pessoas e cafés). Um deles é o de me observar quando estou numa situação-limite. Entendo como situação-limite aquela que me faz querer mandar meus critérios pro beleléu e pronto, ah, que alívio momentâneo-e-olha-o-tamanho-da-merda-que-acabei-de-fazer-caraca-o-que-foi-que-acoteceu-comigo? Pois é… acontece com todo mundo, mas com quem vive em estado permanente de insegurança acontece mais ainda. Porque o medo vem descabido e deve ser porque o cérebro, de alguma forma, também se acostumou a revivenciar as sensações primárias relacionadas à insegurança e a reação é quase sempre descabida pra quem está vendo de fora. Uma situação chata, pra dizer o mínimo. “Mas todos temos momentos primários de insegurança”. Sim, todos temos. Mas não necessariamente eles têm o mesmo peso emocional ou todos nós temos a maturidade pra reeducar a mente e contar pra ela que “hey, mente, olha só, aquilo lá já passou, estou grandinha agora e posso dar um soco na cara de quem pensar em fazer nojeiras comigo”. Parece fácil, mas é um exercício diário, minuto a minuto, até que a coisa engrene.

Mas, viu? A coisa engrena. Engrena e deve fluir naturalmente quando tanto a mente quanto a sensação acostuma com o novo comando de “está tudo bem, eu posso lidar com isso” mesmo quando nem está tudo bem e quando a gente mal sabe se pode mesmo lidar com isso. A insegurança do tamanho do mundo acaba, porque agora a gente já tem um tamanho que o mundo enxerga, que é proporcional ao tamanho que a gente enxerga o mundo. Eu escrevo muito a gente, mas estou falando de mim. Direito: eu tenho um tamanho que o mundo enxerga, que é proporcional ao tamanho que eu enxergo o mundo. Pronto, alivia e admira quando eu me admiro.

E daí que o exercício é este: contar incansavelmente pra este atalho da mente que leva toda sensação de insegurança praquele lugar péssimo e nojento que isso acabou, que estou aqui com o algodãozinho, o remedinho e todos os carinhos devidamente no diminutivo que é pra ficar bem amoroso comigo mesma e que, pronto, nem mesmo neste momento inseguro entre quem eu achava que era e quem eu acho que quero ser – que é, por si, uma transição insegura como outra qualquer – preciso ficar com tanto medo assim.

Já não me cabe tamanha insegurança. Me vejo e, assim, fico em segurança.

Feeling – almost – free <3

A sensação é de quem sente.

Uma vez escutei esta frase e achei dura demais, tamanhos os machucados que me acompanham, estes que vez por outra latejam. Daí o tempo passa – mas não só passa – e os aprendizados ressignificam entendimentos: a sensação é, de verdade, de quem sente.

Porque a gente tem escolha sobre as sensações, tem sim.

Sabe aquele abraço que um dia você esperou de alguém quando contou sobre o abuso, aquele que em tese te salvaria das angústias de ter sido violentada? Que tal, hoje, ressignificar e compreender que, de repente, aquela pessoa não estava pronta pra lidar com a informação e, como podia, creditou a você aquela limitação? Não por mal, porque escolho crer que pessoas erram e não é necessariamente por mal, mas por questões que não estavam prontas pra lidar. Vamos lá, com algum esforço e bastante amor, dá pra compreender que, além de tudo isso, vale simples e fortemente abraçar a si mesmo, libertando com plenitude. 

Pode acontecer o mesmo com a sensação de semelhança de situações vivenciadas por por uma outra pessoa, quand, por exemplo, você sabe que ela também foi abusada e tenta uma conversa achando que, talvez, encontre entendimento ali. E a pessoa fala que  “isso é mais comum do que você imagina”, como se sugerisse que parássemos de sofrer pois o abuso não é “privilégio” só nosso. Chega a dar raiva, né, porque mesmo tendo passado pela mesma coisa, talvez numa intensidade diferente, maior ou menor, não sei, simplesmente esta pessoa opta por não entender a dor que, oras bolas, ela também sentiu.

Mas, como disse no começo deste post, o tempo e os aprendizados passam, chegam e dão novo significado… Pode ser que, de repente, se tal pessoa tratasse de se importar com o que aconteceu comigo, tivesse que se importar com o que aconteceu com ela e, de verdade, limpar feridas é doloroso demais (mas extremamente necessário pra quem quer que sare).  

Pode ser por isso, também por isso, que os casos de abuso continuem num limbo de assuntos tratados. Pode ser por isso, também por isso, que as vítimas de abuso sexual sejam comum e precocemente caracterizadas como pessoas com transtornos mentais – é bastante comum que as famílias, compostas por indivíduos, não queiram demandar tamanha energia se ressignificando. Mas, que lindo, com certeza, com bastante certeza, é por isso, e muito por isso, que me sinto cada vez mais forte, mais feliz e, claro, ousada, mesmo que abusada. 

O cérebro, esta máquina maravilhosa

Ouvi dizer que o cérebro é uma máquina de possibilidades infinitas. E que, naquele momento monstruoso que um adulto viola a infância de uma criança, naquele exato instante que configura o abuso, não é “pelo amor de Deus alguém me tira daqui” o mais comum comando do cérebro. O que acontece em diversos casos é que o cérebro viaja pra outro lugar, um lugar confortável, sem dor, sem os absurdos incômodos daquele momento. E, de certa forma, protege a criança de formar alguns tipos de memórias relacionadas àquele momento.

Daí a criança cresce. Algumas fazem terapia porque, olha, a vida não está fácil, não. De repente, em sessão, pode ser que aquela pessoa (em tese) adulta descubra/relembre que, ops, foi abusada. Que coisa, não? Por que é que o cérebro, esta máquina que maravilhosamente retirou a criança daquele momento, agora, anos depois, reativa esta memória? Ouso arriscar que é porque algumas outras funções vitais podem emperrando naquele ponto da memória e o cérebro, esta máquina realmente maravilhosa, está sinalizando ERRO, VOCÊ PRECISA LIDAR COM ISSO PARA QUE OS OUTROS PROGRAMAS POSSAM SER DEVIDAMENTE EXECUTADOS.

Do bom português: esta ativação de memória só está acontecendo porque você buscou esta resolução se movimentando para crescer. Então, sabe… Sincera e sentimentalmente, sugiro que lide com isso. Que inicie um trabalho árduo de perdão por todos os envolvidos – sim, perdão. Ouvi dizer, também, que o perdão não é um sentimento – o perdão é uma ação, uma ação que liberta quem perdoa de ter sensações ruins sobre  fato. (Abro parêntese para dizer: não é algo superior e impossível e, sim, inclui se libertar das sensações péssimas que temos em relação ao monstro – não é “nossa, coitado, ele tem problema”: é “nossa, que forte, eu ouso ser feliz”. Bem, de verdade, não sei explicar, é um exercício que tenho feito quando o aperto no peito vem: fecho os olhos, coloco aquele medo, aquela raiva, tudo aquilo numa bola de plástico e a jogo pra cima, pro Universo, falando bem forte pra mim mesma e pra quem quer que me escute: “não quero mais estas sensações, façam o que quiserem com elas”. Vale tentar.)

Então, voltando, sugiro que seja iniciado um processo de perdão que pode incluir mais terapia, análise, abraços e choros sem motivo aparente e que, quase com certeza, inclui um retrabalho forte em cima da auto-estima. Estes monstros que abusam levam uma beleza muito importante da gente, a beleza genuína da infância, e ela é importante: as memórias de afeto, acolhimento, amor e aprendizados da infância também são afetadas quando o cérebro precisa transitar entre o que está acontecendo e algo de imaginário pra nos proteger. Daí não há auto-estima que resista.

Também ouvi dizer que uma enorme tendência de quem foi abusado é estar sempre em busca de relacionamentos nos quais possa compensar algumas sensações do abuso: seja abusando, seja se sobrepondo ao outro. Depois de muito apanhar na vida (tantas vezes emocionalmente e uma absolutamente imbecil e desnecessariamente física), sinto que parte da ousadia de quem foi abusado é exercitar o auto-cuidado como critério nas próximas relações. Então não tenha pressa em se relacionar: retome as rédeas de cuidado com a sua própria vida, afinal, isso também faz parte de crescer.

Ah, sobre a pressa: vale lembrar que uma vez que o cérebro foi acionado para livrar o abusado das situações de dor, risco e “puta que o pariu por que isso está acontecendo comigo?”, ele, o cérebro, aprende este comando – o de livrar a vivência das situações problemáticas da vida. E isso é ansiolítico, nossa, é insuportavelmente ansiolítico, quando a gente cresce. Aqui, ainda em aprendizado, sugiro: busque análise, terapia e, se for preciso, medicações que ajudem a refazer a programação desta maravilhosa máquina para que trabalhe a seu favor. Serenus, maracujina, rivotril, banhos e passes: vale tudo se a intenção é retomar o controle e exercitar maturidade, contando pro cérebro que olha, tudo bem, agora eu já sei lidar com esta dificuldade, agora eu já entendo que sou grande o suficiente pra pensar sobre uma solução que vai me deixar melhor e, sim, te agradeço sinceramente por tentar me proteger de tudo o que há de mal – mas hoje, mais do que abusada, sou ousada e afirmo: os maus momentos fazem parte da vida, pode deixar que eu vou lidar bem com eles.

Respiro e me abraço, aliviada.